
O mercado internacional de energia inicia a segunda metade do ano sob forte pressão operacional. Mesmo após o recente acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, mediado pelo Paquistão, o cenário macroeconômico indica a persistência de um déficit global de petróleo ao longo do terceiro trimestre de 2026.
O recuo nas cotações internacionais — com o barril do tipo Brent caindo da máxima de USD 118 no final de abril para a faixa de USD 92 no início de junho — trouxe um alívio momentâneo para as bolsas, mas não resolveu o aperto físico na oferta do produto.
Os dados e análises constam na 36ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da consultoria StoneX, divulgado no início de julho. De acordo com o documento técnico, embora o entendimento diplomático tenha contido o prêmio de risco gerado pelo bloqueio temporário do Estreito de Ormuz, a recomposição dos fluxos comerciais e da capacidade extrativa global ocorrerá de forma assimétrica e gradual.
Gargalos na OPEP e estoques críticos nos EUA
A recente crise geopolítica no Golfo Pérsico provocou uma redução abrupta de cerca de 10 milhões de barris por dia (mbpd) na produção conjunta da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) entre fevereiro e maio.
Desse total, a Arábia Saudita registrou uma perda de 3,2 mbpd, enquanto Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos responderam por um recuo adicional de 6,0 mbpd.
O escoamento foi motivado pela sobrecarga de armazenamento diante da paralisia logística no Estreito de Ormuz, que operou com apenas duas passagens diárias de navios tanques no período pós-guerra, contra a média histórica de 45 travessias.
Para mitigar o desabastecimento nos principais hubs globais, os Estados Unidos assumiram uma posição central no fornecimento, elevando suas exportações de petróleo e derivados para 12,8 mbpd entre abril e junho.
No entanto, para sustentar esse volume comercial, a administração norte-americana recorreu à liberação de reservas estratégicas (SPR), o que empurrou os estoques emergenciais do país para o menor nível registrado desde 1983.
Embora nações produtoras secundárias como Brasil, Cazaquistão, China, Guiana e Canadá tenham ampliado a extração para tentar equilibrar o balanço energético, o volume adicional não foi suficiente para compensar o vácuo deixado pelo Oriente Médio.
“O mercado encontrou fontes alternativas de suprimento ao longo do segundo trimestre, mas elas não foram capazes de substituir completamente os volumes perdidos na região do Golfo. Isso manteve o balanço global apertado e contribuiu para uma redução importante das reservas ao redor do mundo”, explica o especialista de Inteligência de Mercado da StoneX, Bruno Cordeiro Santos.
Retração do refino e consumo na Ásia
Os reflexos da menor disponibilidade da commodity física atingiram diretamente as principais potências econômicas da Ásia. No mês de maio, a China registrou o menor volume de importações de petróleo bruto dos últimos oito anos, totalizando 7,8 mbpd, acompanhado por uma desaceleração na atividade de suas refinarias estatais, cujo fator de utilização recuou para 72%.
A Índia também adotou uma postura de retração, reduzindo suas compras externas gerais em 22% no comparativo com o período pré-guerra e elevando em 25% sua dependência do petróleo russo para garantir o abastecimento doméstico.
Projeções do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE), compiladas no relatório da StoneX, indicam que a produção conjunta da OPEP12 e dos Emirados Árabes Unidos deve se recuperar a passos lentos.
O volume totalizado deve retornar ao patamar de 29 mbpd apenas no quarto trimestre deste ano, enquanto a normalização integral aos níveis de oferta observados antes do conflito geopolítico é projetada pelo setor somente para 2027.
Riscos climáticos e tensões no Leste Europeu
O panorama para o restante do segundo semestre envolve variáveis adicionais de risco para investidores e refinarias. A capacidade dos Estados Unidos de continuar atuando como amortecedor de choques de preços estará severamente limitada pela necessidade de recompor seus próprios estoques estratégicos.
Além disso, a temporada de furacões norte-americana introduz riscos climáticos diretos para as plataformas de extração offshore instaladas no Golfo do México, responsáveis por 10% a 15% do volume total do país.
Paralelamente, a guerra entre Rússia e Ucrânia no Leste Europeu continua a influenciar o prêmio de risco das commodities energéticas. Ataques contínuos de forças ucranianas contra refinarias, portos e oleodutos representam ameaças constantes ao fluxo russo.
Internamente, o mercado russo demonstra instabilidade, marcada pelo banimento das exportações de querosene de aviação (QAV) e por discussões sobre uma possível suspensão das vendas externas de óleo diesel, o que amplia as incertezas regulatórias sobre o comércio global de combustíveis.
Demanda aquecida adia superávit para 2027
Pelo lado do consumo, a expectativa macroeconômica é de alta gradual no segundo semestre. Dados apontam uma projeção de avanço de 0,33 mbpd na demanda chinesa ao longo do terceiro trimestre, expandindo para 0,62 mbpd no quarto trimestre com a retomada das unidades de processamento locais.
O avanço da demanda asiática também será favorecido pelas flexibilizações e isenções recentemente anunciadas sobre as sanções relacionadas ao petróleo iraniano, beneficiando refinarias da China e da Índia.
Nos Estados Unidos, o consumo interno deve permanecer resiliente, impulsionado pelo pico sazonal de viagens (driving season).
A convergência entre uma demanda firme nas maiores economias e a lenta recomposição da oferta física no Golfo Pérsico reforça a perspectiva de continuidade do déficit global de petróleo até o encerramento do trimestre, em setembro.
O reequilíbrio estrutural do balanço, com o retorno consolidado do mercado ao terreno superavitário, é esperado pela StoneX apenas entre o final de 2026 e o início de 2027, sob a condição de que o fluxo marítimo pelo Estreito de Ormuz transcorra sem novos sobressaltos políticos.
*Com informações da StoneX




