Mato Grosso do Sul enfrenta um avanço silencioso da violência contra a população idosa. Embora o Estado tenha registrado 4.252 denúncias que resultaram em 542 prisões em ações de enfrentamento, especialistas alertam que os números representam apenas uma pequena parcela da realidade, já que grande parte dos casos permanece oculta dentro das próprias famílias.
Os dados foram apresentados durante o 11º Seminário Estadual de Enfrentamento à Violência Contra a Pessoa Idosa, realizado na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS). O levantamento faz parte do estudo “Diagnóstico da Violência no MS: Dados, Invisibilidade e Necessidades Intersetoriais”, desenvolvido pelo Ambulatório de GerontoGeriatria e Cuidados Paliativos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Segundo o professor Eduardo Ramirez Mezza, responsável pela pesquisa, as estatísticas revelam apenas a parte visível de um problema muito maior. De acordo com o pesquisador, muitos idosos deixam de denunciar porque dependem financeiramente ou emocionalmente do agressor, que, na maioria das vezes, é um familiar, além do medo de represálias e do desconhecimento dos canais de proteção.
Apesar da redução de 40,7% nos homicídios contra idosos entre 2014 e 2024, a violência não letal continua crescendo e preocupa especialistas. Mato Grosso do Sul lidera o ranking nacional desse tipo de ocorrência, com 310,5 notificações para cada 100 mil idosos, índice superior à média brasileira. Somente entre janeiro e maio de 2023 foram registradas 818 denúncias, aumento de 59,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Campo Grande concentrou 502 registros, seguida por Dourados, com 51, e Três Lagoas, com 39. Ao todo, essas denúncias resultaram em 4.704 violações de direitos, evidenciando que uma única vítima pode sofrer diferentes formas de violência simultaneamente.
O estudo mostra que a negligência é a principal forma de violência contra idosos, representando 41% das violações registradas. Em seguida aparecem a violência psicológica (24%), o abuso financeiro (20%), a violência física (12%) e a violência institucional (2%). Os pesquisadores destacam que cerca de 65% dessas agressões são consideradas invisíveis, por envolverem abandono, falta de cuidados, isolamento, humilhações e outras formas de violência emocional que comprometem a saúde, a autonomia e a dignidade da pessoa idosa.
As mulheres correspondem a 67% das vítimas registradas. A maior incidência ocorre entre pessoas de 76 a 80 anos, enquanto idosos acima dos 80 anos apresentam maior vulnerabilidade em razão da dependência física e da necessidade de cuidados permanentes. A pesquisa também aponta a baixa escolaridade como fator de risco, já que 67% das vítimas possuem pouca instrução, dificultando o acesso à informação, aos direitos e aos mecanismos de proteção.
Entre os crimes que mais preocupam especialistas está o abuso financeiro, caracterizado pelo uso indevido de aposentadorias, cartões bancários, contratação de empréstimos sem autorização e falsificação de assinaturas. Em muitos casos, os responsáveis são familiares ou cuidadores, justamente as pessoas que deveriam garantir a proteção do idoso.
Durante o seminário, representantes da assistência social, segurança pública, Ministério Público, Defensoria Pública e gestores municipais defenderam o fortalecimento da rede de proteção e maior integração entre os órgãos responsáveis pelo atendimento à população idosa. Também foi destacada a necessidade de ampliar os investimentos na assistência social para garantir o funcionamento de casas de acolhimento, Centros-Dia e Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), especialmente diante do crescimento acelerado da população idosa em Mato Grosso do Sul.
A secretária-executiva de Assistência Social, Taciana Afonso Silvestrini, defendeu a aprovação da PEC 7, que prevê a destinação de 1% da Receita Corrente Líquida para a assistência social. Segundo ela, a medida elevaria significativamente os recursos destinados ao setor, permitindo ampliar a oferta de serviços especializados para idosos em situação de vulnerabilidade ou com alto grau de dependência.
Outro tema debatido foi o aumento de idosos abandonados em hospitais após receberem alta médica. A promotora Paula Volpe ressaltou a importância da implantação de casas de apoio pelos municípios para acolher temporariamente pessoas sem retaguarda familiar. Já o defensor público Marcelo Marinho da Silva destacou que grande parte das violências ocorre dentro das próprias famílias e defendeu maior conscientização sobre a responsabilidade dos familiares no cuidado com os idosos.
Durante o evento, a subsecretária de Políticas Públicas para a Pessoa Idosa, Larissa Paraguassu, apresentou as ações desenvolvidas durante a campanha Junho Prata, realizada em 60 municípios com foco no combate ao idadismo e na conscientização sobre os direitos da população idosa. Ao final do seminário, pesquisadores e gestores defenderam a criação de um grupo permanente de trabalho para acompanhar políticas públicas, fortalecer a rede de proteção e transformar os debates em ações concretas voltadas à prevenção da violência e à garantia da dignidade das pessoas idosas.




