O financiamento por meio de políticas públicas tem impulsionado a retomada do cinema em Mato Grosso do Sul, com novos filmes, festivais e oportunidades de formação profissional. Na terceira edição do Festival Curta Campo Grande, realizada de 26 a 31 de outubro, a organização recebeu 1.257 inscrições de curtas-metragens, com seleções sul-mato-grossenses e internacionais. Apesar do crescimento, o setor ainda enfrenta dificuldades para garantir recursos específicos e consolidar uma cadeia produtiva no estado.
Para Dannon Lacerda, diretor do Festival, o aumento da produção está diretamente relacionado à ampliação das políticas de fomento cultural, especialmente após a implementação das leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc. O diretor avalia, no entanto, que Mato Grosso do Sul ainda precisa avançar na criação de mecanismos permanentes de apoio ao Audiovisual.

“A gente só teve um boom, um crescimento expressivo dos filmes a partir da lei Paulo Gustavo e agora da lei Aldir Blanc. Porque, infelizmente, a gente ainda não tem recursos específicos para o cinema como São Paulo e Rio de Janeiro”, afirmou.
O realizador cita também experiências de outras regiões do país para demonstrar como o investimento público pode contribuir para a continuidade da produção audiovisual. Segundo ele, estados como Pernambuco e Ceará mantêm uma produção consistente com apoio de políticas públicas, enquanto Mato Grosso do Sul ainda busca fortalecer sua estrutura de financiamento.
Editais ajudam a tirar filmes do papel
A experiência da produtora e diretora audiovisual Elis Regina Nogueira exemplifica como os editais viabilizam novos projetos. O curta-metragem documental Candomblé por Elas, selecionado para o Festival Curta Campo Grande, recebeu recursos de um edital da Política Nacional Aldir Blanc.
A produção apresenta a tradição do Candomblé Ketu a partir das histórias de cinco mulheres e aborda os rituais religiosos, a preservação cultural e o preconceito enfrentado pelas praticantes.
Para Elis, o acesso aos recursos é fundamental para transformar projetos em filmes, sobretudo porque os custos de produção representam uma barreira para realizadores independentes. Ela destaca que o momento atual oferece mais oportunidades de financiamento, mas que a realização de uma obra exige também condições para alcançar o público.

“A gente vive um momento muito importante, muito interessante, que a gente tem vários editais. Claro que muita gente faz o filme na guerrilha, mas Cinema não é uma brincadeira. Cinema é caro, custa caro fazer”, afirmou.
A diretora aponta dois desafios centrais para o audiovisual: conseguir recursos para produzir e encontrar espaços para exibir as obras. Nesse cenário, festivais como o Curta Campo Grande ajudam a aproximar os filmes dos espectadores e oferecem oportunidades de circulação para produções independentes.
Formação profissional fortalece o setor
Além do financiamento, a formação de profissionais aparece como outro fator importante para o crescimento do cinema sul-mato-grossense. A abertura do curso de Audiovisual na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) em 2019 contribui para qualificar trabalhadores e ampliar a capacidade de produção local.
“Isso ajuda a qualificar mão de obra e ajuda também a movimentar esses novos trabalhadores do cinema para que possam fazer os seus filmes e também criar redes de apoio. Porque pra fazer cinema com qualidade, e também de uma forma customizada, você precisa ter bons profissionais pra isso”, afirma Dannon Lacerda.
Elis Regina também identifica avanços na qualificação das equipes. A diretora relata que já trabalha com profissionais formados pela universidade e avalia que a formação técnica ajuda a superar uma das dificuldades históricas do setor no estado.
Festivais ampliam a circulação dos filmes

A realização de festivais contribui para divulgar produções locais, aproximar realizadores e estimular o contato do público com obras de diferentes regiões e países. Além do Festival Curta Campo Grande, o Bonito CineSur faz parte do circuito de eventos que favorecem a circulação do cinema em Mato Grosso do Sul.
A terceira edição do Curta Campo Grande recebeu inscrições de realizadores brasileiros e estrangeiros e ampliou sua programação internacional. Para Lacerda, a procura demonstra o interesse dos cineastas em apresentar seus trabalhos em Campo Grande e a importância de criar espaços de intercâmbio cultural.
“Enfim, os festivais também ajudam muito nessa divulgação, nesse fomento e nessa possibilidade de o seu filme ser mostrado. Porque só fazer filme não adianta, tem que fazer filme, tem que ser bom e tem que ser mostrado”, afirmou.
A expansão dos editais, a formação profissional e a realização de festivais indicam caminhos para fortalecer o cinema em Mato Grosso do Sul. O desafio é transformar as oportunidades recentes em condições duradouras de produção e circulação, para que os realizadores consigam manter seus projetos e ampliar a presença dos filmes sul-mato-grossenses no circuito audiovisual.




