O Grupo de Trabalho Intersetorial da População em Situação de Rua (GT-PSR), do qual faz parte o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), concluiu as etapas de contagem e levantamento do perfil da população em situação de rua de Campo Grande. O trabalho identificou 1.476 pessoas nessa condição no município.
O MPMS foi representado no trabalho pela coordenadora do Núcleo de Cidadania (Nuci), promotora de Justiça Paula Volpe, que destacou a importância do levantamento para orientar a formulação de políticas públicas na Capital.
Segundo a promotora, o mapeamento representa um divisor de águas para o planejamento de ações governamentais e permite conhecer com maior precisão a realidade da população em situação de rua.
“Não se faz política pública sem dados. Não há como trabalhar em cima de uma realidade que não é plenamente conhecida. Se não sabemos quantas pessoas estão nas ruas, quantas são crianças, homens, mulheres, pessoas com deficiência ou com transtornos mentais, não conseguimos estruturar ações eficazes.”
Paula Volpe também ressaltou que o crescimento da população em situação de rua é um desafio enfrentado por grandes centros urbanos e exige articulação entre diferentes órgãos e instituições.
“Esse é um desafio complexo, que atinge grandes centros e exige a união de esforços entre Estado, Município e as forças de segurança. A ADPF 976 já nos dá as diretrizes de atuação, e agora, com esse diagnóstico em mãos, conseguimos entregar resultados concretos para Campo Grande.”
A promotora defendeu ainda a atuação integrada nas áreas de saúde e segurança pública.
“Quando o problema envolve saúde e segurança pública, a única solução viável é somar forças e trabalhar de forma integrada.”
Contagem
A primeira etapa do trabalho utilizou a metodologia Point-in-Time Count (PIT), que combina observação direta em espaços públicos com dados de registros administrativos da rede de atendimento. A operação foi realizada em 30 de setembro de 2025, com o objetivo de produzir um retrato da população em situação de rua em uma data de referência.
Das 1.476 pessoas identificadas, 842, ou 57%, foram observadas em vias públicas. Outras 634 pessoas, equivalentes a 43%, constavam nos registros dos serviços e instituições da rede de atendimento.
A contagem registrou ainda 1.190 homens, correspondentes a 80,6% do total; 234 mulheres, ou 15,9%; e 52 crianças, equivalentes a 3,5%.
Na distribuição territorial, a Região Urbana do Centro concentrou 566 pessoas, o equivalente a 40% dos registros territorializados. O Anhanduizinho apareceu na sequência, com 363 pessoas, ou 25,6%.
Também foram registrados casos nas regiões Prosa, Lagoa, Segredo, Bandeira e Imbirussu. Outras 60 pessoas foram contabilizadas em uma comunidade terapêutica localizada na área rural do município.
Perfil
Após a contagem, o trabalho avançou para a aplicação de questionários. O relatório analítico desta etapa considera 257 entrevistas, sendo 193 realizadas com pessoas classificadas no grupo em rua e 64 com pessoas acolhidas.
O levantamento aponta que o perfil dos entrevistados é majoritariamente masculino e pardo, com idade média de 39,6 anos.
Entre os 257 registros, 196 são de homens cis, correspondentes a 76,3%, e 54 de mulheres cis, ou 21%. Pessoas pardas representam 60,3% da base, enquanto pessoas pretas correspondem a 17,1%.
A documentação também aparece entre os principais pontos identificados pelo estudo. Em 120 entrevistas, ou 46,7% da base, foi registrada a ausência de documentos em posse. Entre as 193 pessoas do grupo em rua, esse percentual chega a 57,5%.
O levantamento registrou ainda inscrição no Cadastro Único em 135 entrevistas e recebimento de benefício social em 101 casos.
A situação de rua não era uma experiência inédita para parte dos entrevistados. O relatório aponta recorrência em 166 registros, ou 64,6% da base. Além disso, 190 pessoas, equivalentes a 73,9%, informaram permanecer sozinhas.
Trabalho e renda
Em relação a trabalho e renda, sete entrevistados informaram possuir trabalho formal, enquanto 94 declararam exercer atividades informais.
Entre as pessoas do grupo em rua, 88, ou 45,6%, relataram trabalho informal. A catação e a reciclagem apareceram em 72 dos 193 registros desse grupo.
O relatório também reúne informações sobre acesso a direitos e situações de violência. A violência física foi registrada em 127 entrevistas, correspondentes a 49,4% da base. A violência psicológica ou emocional apareceu em 121 registros, enquanto 56 pessoas relataram violência institucional e 24 informaram violência sexual.
Entre as principais necessidades apontadas pelos entrevistados estão trabalho e renda, com 110 registros; moradia, com 108; alimentação, com 107; saúde, com 100; documentação, com 91; e tratamento para uso de substâncias, com 77.
No grupo em rua, a alimentação aparece como a necessidade mais citada. Entre as pessoas acolhidas, trabalho, renda e moradia ocupam as primeiras posições.
Trabalho conjunto
O GT-PSR é formado pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, Secretaria de Estado de Assistência Social e dos Direitos Humanos (SEAD), Secretaria-Executiva de Gestão Estratégica e Municipalismo (SEGEM), Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano (Planurb), Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (SAS), Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Associação Águia Morena de Redução de Danos.
Os dados produzidos pelo grupo reúnem informações quantitativas e sobre o perfil das pessoas entrevistadas e deverão servir de base para subsidiar o planejamento e o acompanhamento de políticas públicas destinadas à população em situação de rua de Campo Grande.





