As canetas emagrecedoras, consideradas um dos maiores avanços recentes no tratamento da obesidade, ainda não fazem parte da lista de medicamentos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, a redução dos preços após o fim da patente da semaglutida e as novas avaliações em andamento no Ministério da Saúde colocam esses medicamentos mais próximos da rede pública do que nunca.
Embora ainda não exista previsão oficial para a incorporação desses remédios ao SUS, o Ministério da Saúde afirma que o assunto se tornou uma das prioridades da pasta nos últimos meses. A expectativa cresceu principalmente após a chegada de versões nacionais e genéricas da semaglutida, que reduziram significativamente o custo do tratamento.
O desafio ocorre em um cenário de avanço da obesidade no Brasil. Dados do Vigitel, levantamento divulgado pelo Ministério da Saúde neste ano, apontam que 25,7% dos adultos brasileiros conviviam com obesidade em 2024. Em 2006, esse percentual era de 11,8%, evidenciando o crescimento acelerado da doença nas últimas duas décadas.
Atualmente, o SUS oferece poucas opções específicas para tratar a obesidade. Não há medicamentos disponíveis para controle da doença, e a principal alternativa terapêutica é a cirurgia bariátrica, procedimento cuja fila de espera pode durar anos em diversas regiões do país.
No ano passado, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) analisou pedidos para incluir dois medicamentos utilizados tanto no tratamento da obesidade quanto do diabetes tipo 2: a liraglutida, presente em medicamentos como Saxenda e Victoza, e a semaglutida, princípio ativo de Wegovy e Ozempic. As solicitações foram rejeitadas devido ao elevado impacto financeiro estimado, superior a R$ 8 bilhões.
Esse cenário começou a mudar em março deste ano, quando expirou a patente da semaglutida. Com o fim da exclusividade da farmacêutica Novo Nordisk, empresas brasileiras passaram a desenvolver suas próprias versões do medicamento, aumentando a concorrência e reduzindo os preços.
Como consequência, o Ministério da Saúde solicitou prioridade à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para analisar registros de medicamentos à base de semaglutida e liraglutida. Nos últimos meses, a agência recebeu 18 pedidos de registro de novos produtos contendo semaglutida.
Em junho, chegou às farmácias a primeira caneta emagrecedora produzida no Brasil com esse princípio ativo, a Ozivy, desenvolvida pelo laboratório EMS. Pouco depois, a Anvisa aprovou o registro de outras cinco versões do medicamento: Zempneo, Semavy, Orsema, Seemasun e Owozy. Ainda não há previsão para o início das vendas nem definição dos preços desses produtos.
Segundo o Ministério da Saúde, o aumento da concorrência deverá provocar uma redução significativa nos valores, fator considerado decisivo para futuras análises sobre a incorporação da tecnologia ao SUS.
Enquanto isso, medicamentos mais modernos, como a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, permanecem fora dos planos da rede pública. O tratamento custa atualmente entre R$ 1,5 mil e R$ 3 mil por mês, e a patente deve permanecer vigente por aproximadamente mais dez anos.
Outro passo importante foi dado no fim de junho, quando o Ministério da Saúde iniciou um projeto-piloto no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O estudo acompanha 250 pacientes com obesidade grave que aguardam cirurgia bariátrica e passaram a receber gratuitamente tratamento com semaglutida.
Batizado de Real-Bari, o projeto busca avaliar tanto os resultados clínicos quanto os custos da terapia dentro da realidade do SUS. As informações obtidas deverão subsidiar futuras decisões sobre a adoção desses medicamentos na rede pública.
Especialistas avaliam que o país vive o momento mais favorável para a incorporação de medicamentos contra a obesidade ao SUS. A endocrinologista Maria Edna de Melo, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) e integrante da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), afirma que a expressiva queda no preço da semaglutida mudou o cenário.
Segundo a médica, o medicamento chegou a custar cerca de R$ 1,4 mil, mas atualmente pode ser encontrado por aproximadamente R$ 330 em versões similares, tornando sua incorporação mais viável economicamente.
Em junho, a Novo Nordisk apresentou um novo pedido à Conitec para inclusão da semaglutida no SUS, desta vez oferecendo desconto de 59% em relação ao valor anterior. A proposta restringe o uso a pacientes com mais de 45 anos, obesidade grave, doença cardiovascular estabelecida e sem diagnóstico de diabetes.
De acordo com a farmacêutica, estudos apontam que a semaglutida reduz em 20% o risco de morte cardiovascular, infarto e acidente vascular cerebral (AVC) em pacientes com sobrepeso ou obesidade que já apresentam doença cardiovascular.
A Conitec tem prazo de até 180 dias para concluir a análise da proposta. Caso o parecer seja favorável, o Ministério da Saúde ainda precisará realizar processo de licitação antes da oferta do medicamento pelo SUS.
Mesmo diante da expectativa de aprovação, especialistas acreditam que, em um primeiro momento, o acesso será limitado aos pacientes considerados de maior risco clínico. Ainda assim, avaliam que a medida representará um avanço importante no tratamento da obesidade dentro da saúde pública.
Os médicos ressaltam, porém, que o uso das canetas emagrecedoras não substitui outras estratégias terapêuticas. O tratamento da obesidade exige acompanhamento contínuo, incluindo orientação nutricional, prática regular de atividade física e assistência multiprofissional, já que a doença é considerada uma condição crônica que requer cuidados de longo prazo.




